Antônio Rita, Josué, Zé Barbosa e Geraldinho - Jangadeiros da Comitiva Pirata.

A Festa chega ao fim. O mesmo ritual encerra cada Festival Marítim0 de Brest, a maior parte das embarcações aparelha cedo e segue para Douarnenez, é a Grande Regata Brest-Douarnenez, tudo que flutua na enseada de Brest vem engrossar a procissão de cascos grandes e pequenos, de madeira ou de plástico, a vela ou a motor. É a fé que guia a romaria, a fé na força do vento que move as velas mas também na mão poderosa que regula a escota e na sabedoria que manobra o leme. A fé no ofício.

As jangadas seguiram outro rumo. Era preciso trazê-las de volta a seus ancoradouros bretões. Todas seguiram num primeiro tempo para o município de Relecq-Kerhuon, antiga aldéia de pescadores na periferia de Brest. Jacques Caraës, da agência Kaori, virá recuperar a Iemanjá, a Dragão do Mar, a Ceará e a Fortaleza daqui a poucos dias, o comboio seguirá novamente até o País dos Abers, pela estrada. A Mucuripe e a Pirata voltam a ficar sob os cuidados da TVK, Toutes Voiles Kerhorres. A associação, presidida por Marc Legall, agrega navegadores de velas tradicionais, velas modernas de competição ou não, e velas exóticas, melhor dizer, jangadas. Criada em 2004, no Relecq-Kerhuon, a TVK organiza manifestações náuticas, procura o evento maritime suscetível de inscrever as embarcações nordestinas na sua programação, enfim, a proposta é dinâmica e inovadora. Em 2006, ela lançou o primeiro challenge de jangadas na enseada de Brest, duas embarcações e nove tripulações, de quatro membros cada, se revezando a bordo para vencer a competição. No primeiro fim de semana de setembro, anualmente, a TVK organiza a Regata de Relec-Kerhuon que consegue reunir mais de 150 barcos, numa demostração de espírito competitivo e festivo.

Desde 2005, os sócios da TVK aprenderam a manobrar as jangadas, na base da intuição e da técnica já adquirida em outros barcos a vela. Mas faltava o exemplo, o gesto certo na hora certa, tinham técnica mas faltava uma compreensão mais íntima da coisa. Velejar com os jangadeiros cearenses era preciso para aprimorar a prática, no respeito de uma tradição marítima que, até então, lhes era desconhecida.

A intenção da TVK é de perenizar a navegação a bordo das jangadas, e por isso, a associação fica preocupada também em aprender a fazer as velas. A tradição de molhá-las no momento de dar partida, torna a embarcação mais performante mas, em contrapartida, desgasta o pano mais rápido.

Após uma hora e meia de travessia, as jangadas aportavam no Lerec-Kerhuon, tinha sol, música, alegria. A prefeitura da cidade tinha organizado um piquenique e Yohann Nedelec, o prefeito da cidade era presente. A antena do Centre National des Arts de la Rue en Bretagne, Le Fourneau, era responsável da programação cultural e tinha convidado Ronan Tablantec, um humorístico improvisador. No final da tarde, Georges, Nathalie, Christian, Marc, Cécile, todos da TVK, já se entendiam com Zé Barbosa, Antônio Rita, Josué e Geraldinho. O dia seguinte seria dia de desenhar, cortar, costurar uma vela de jangada.

Daqui para frente, navegar de jangada entre o País dos Abers, o Relec-Kerhuon e Brest, será apenas uma questão de vento.