Texto de Audifax
LONGA TRAVESSIA

Há duas décadas, aportou, por estas beiras-de-praia cearenses, um cidadão bahiano-franco-lusitano, arrastando a família disposto a escancarar o seu baú de quinquilharias para montar tenda nos areais desta Fortalezamada. E seus adoráveis saltimbancos derramaram a alegria saudável e descontraída que guardavam dentro d’alma sobre o encantado reino de Iracema.
Júlio Trindade, este pirata de carne e osso, sem mãos de gancho, desprovido de perna de pau e olho de vidro, foi arrumando janelinhas coloridas sobre um paredão desbotado, erguendo mastros, puxando cordames rumo ao céu, onde, entre estrelas cintilantes, pendurou sorridentes caveirinhas, e assim, montou o cenário do seu mágico circo.
Gentes dos mais variados quadrantes, em volta de uma tosca mesa, habitavam um convés salpicado de barris e caixotes, e, num palco armado ao fundo, o som corria solto. Acompanhando, ora Waldick Soriano, ora Joyce; Nonato Luiz e Falcão; Cássia Eller e Gonzaguinha; Cidade Negra e Adriana Calcanhoto... e muita gente boa deste país afora.
Inesquecíveis noites animadas pelo Alta Tensão e outros conjuntos terminaram por transformar uma cinzenta segunda-feira na noite mais esfuziante do planeta. Isto impôs a criação da Banda do Pirata, ao mesmo tempo em que turistas dos mais remotos pedaços exigiam cantos nativos. E o Pirata mostrou pra eles como se faz um baião. E mostrou, também, como se saboreia um baião-de-dois, e mais uma infinidade de outras iguarias prata-de-casa. De sobremesa, o folclore vivo mostrado com mestria pelo Cordão do Caroá e o Grupo de Quadrilhas do Zé Testinha.
O agradável aos ouvidos tinha que ser um alumbramento aos olhos. E aí o Pirata não descuidou. Mostrou a arte cearense de Kazane, Tarcísio Garcia, Cristina Bedê e muitos outros. E deu a maior força pra literatura em memoráveis noites de autógrafos.
Pois bem, muito se tem o que dizer do Pirata ao longo destes vinte anos, e este espaço é curtíssimo. Portanto esta é uma crônica de abertura para uma série que virá diariamente, assinada por gente que entende e gosta da casa. Será sua história contada com espontaneidade, inclusive relatos e depoimentos de freqüentadores e mais causos e fatos pitorescos que se desenrolaram nesta alegre navegação, narrativas, tipo diário de bordo manuscrito pelos embarcadiços da noite, portadores da maresia contagiante da boemia, marujos dessa dourada travessia perfumada pelos vapores etílicos ao som da mais pura música.
Embarquemos, pois, nesta nau Pirata e dobremos o Cabo da Boa Esperança, virada de folha de calendário, vinte anos ininterruptos de amizade e congraçamento em torno da maior aspiração do ser humano – a felicidade. Estampada nos olhos dos meninos da Praia de Iracema ou dos jangadeiros de Caetanos por onde se estende o trabalho social e ambiental promovido por esses intrépidos homens do mar.

 

Audifax - artísta plástico, escritor, bohêmio

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